segunda-feira, 25 de maio de 2009

Frida Kahlo, maravilhosa e visceral


por Daniel de Souza * - “Que maravilha!” Consta nos diários de Cristóvão Colombo esta frase para descrever os primeiros contatos do navegador genovês com o novo mundo. Séculos mais tarde, o escritor cubano Alejo Carpentier (1904-1980) aplicou o conceito de maravilhoso à realidade do continente americano e à Arte produzida nele.

Para Carpentier, o mágico, o absurdo, ou, se preferirem, o surreal em nosso continente é parte integrante do cotidiano e de nossa realidade. Em nós, diferentemente do que ocorre com os europeus, consciente e subconsciente se fundem num só, num todo, não há uma divisão. Fatos históricos e fenômenos naturais comprovam a magia e a maravilha do continente, basta-nos observar as linhas de Nazca, ou a arquitetura maia, ou ainda o Titicaca, lago navegável mais alto do mundo e berço da civilização inca.

A mestiçagem também é um componente a mais para nos tornar um povo, de certa maneira, mais propenso, mais ligado à magia e ao “absurdo”. Basta ver a nossa religiosidade, misto de religiões africanas, européias e indígenas. O vodu haitiano, o candomblé baiano são testemunhos do quão arraigado está em nossa carne o ilógico, (ilógico aqui quer dizer aquilo que não obedece a uma lógica cartesiana) e o quão arraigado está em nós o onírico, o imaginado.

É neste sentido que o “maravilhosa” do título vem adjetivar Frida Kahlo (1904-1954), pintora “surrealista” mexicana. Diferentemente do que ocorre com os pintores surrealistas europeus, mais notadamente o expoente Salvador Dali, que têm uma grande influência e uma tremenda assimilação das teorias freudianas, em Frida o surrealismo parece ser algo intrínseco, quase que naïf, como se, para ela, aquela fosse a única maneira possível de se expressar e de pintar.

Em Frida o ilógico é a única lógica. Suas metáforas parecem brotar tanto do centro de sua Terra – observar os quadros Eu, o Diego e o senhor Xólotl (1949), Flor da vida (1943), e O Sol e a vida (1947) – quanto de dentro dela mesma – observar as telas O veado ferido (1946), Árvore da esperança (1946), A coluna partida (1944; ao lado), esta última uma das telas mais fortes de todos os tempos.

Para explicar o outro adjetivo, visceral – que vem de vísceras, e quer coisa mais subjetiva do que as próprias vísceras? – teremos que dar uma pincelada em alguns dados biográficos da artista.

Frida Kahlo teve uma vida recheada de dor (é possível criar sem sofrer?). Filha de um pai epiléptico e de uma mãe extremamente religiosa, Frida, aos seis anos, teve poliomielite, o que a deixou com uma perna mais fina que a outra e com o pé esquerdo atrofiado, além de lhe render o apelido de “perna de pau” na escola. Aos dezoito anos, a pintora sofreu um acidente de automóvel, que lhe esmagou a coluna vertebral e lhe deixou impossibilitada de ter filhos. Tudo isso, mais as dúvidas quanto à própria sexualidade e mais a questão da identidade são temas constantes em sua obra.

Para mim, que sou um romântico declarado, a grande Arte é movida muito mais pela paixão que pela razão, e… Frida faz isso. Sua Arte é tão íntima, tão pessoal, tão “ego” que se torna universal, humana, “self”. Suas telas são todas metáforas de fatos, opiniões, sentimentos e situações pessoais. Frida Kahlo nos seduz pelo coração e não pelo intelecto. É mais ou menos o que Vincent Van Gogh também procurava fazer.

Outro aspecto importante a seu respeito, e que não poderia ser deixado à margem, é a questão da arte feminina. Frida é uma das primeiras pintoras a abordar de fato questões relacionadas ao universo das mulheres, como a maternidade, ou a impossibilidade da maternidade, por exemplo (ver as telas Nascimento (1932), A cama voadora (1932) ou ainda a questão da violência contra a mulher, que a pintora retrata tão bem na tela Uns quantos golpes (1935; ao lado).

Toda a obra da pintora é fascinante, mas todo artista tem aquelas obras que de fato são fora do comum, realmente impressionantes e que nos deixam boquiabertos. No caso da mexicana, as duas obras de tirar o fôlego são a já citada A coluna partida e As duas Fridas (1939). Esta, pintada pouco depois do divórcio da pintora com o também pintor Diego Rivera, é um auto-retrato composto por duas personalidades diferentes. No trabalho, Frida trata das emoções envolvidas na separação. A parte de si que era respeitada por Diego Rivera é a Frida mexicana, com trajes pré-colombianos e com uma pequena fotografia nas mãos, enquanto a outra Frida, não tão respeitada assim, leva um vestido branco mais europeu. Os corações das duas mulheres estão expostos e são ligados, um ao outro, apenas por uma artéria e a parte européia de Frida corre o perigo de se esvair em sangue até a morte, uma vez que uma das veias de seu coração, embora meio que obstruída, ainda sangra, manchando de vermelho o belo vestido branco.

É difícil pra mim, quando estudo, ou apenas aprecio a obra de Frida Kahlo, não estabelecer um paralelo com a canção “Beatriz”, do Chico Buarque, principalmente na voz de Milton Nascimento. Se repararmos nas expressões faciais da maioria das telas da artista, perceberemos uma certa imparcialidade de sentimentos, como uma atriz que se despe de si mesma para melhor se enxergar. Olhando somente para seu rosto, fico imaginando, “Será que ela é triste / Será que é o contrário / Será que é pintura… / E se eu pudesse entrar na sua vida…

Então me deparo com o quadro A Máscara (1945), que inverte o principio da máscara, onde encontramos a verdadeira Frida, nua e desesperada. E eu posso entrar na vida dela, mesmo com vinte quatro anos separando sua morte do meu nascimento. Hoje escrevi essas linhas só pra dizer a ela que a amo e a entendo. É pouco, eu sei, mas “Se um dia ela despencar do céu / e se os pagantes exigirem bis / e se um arcanjo passar o chapéu…” quero estar por aqui e ter mãos carinhosas e palavras doces na língua pra dizer a ela.

Beijos, Frida.


* Daniel de Souza Lopes é formado pela UNESP e participou do curso de mestrado em Teoria Literária da USP. É professor de Literatura e Língua Portuguesa e Espanhola do Colégio Objetivo e da Rede Pública Estadual. Lançou recentemente seu primeiro romance, É preciso ter um caos dentro de si para criar uma estrela que dança, pela Editora Os Viralata. Blogue: pianistaboxeador21.blogspot.com.

Frida- Pôsters


Trailer - Frida

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Tiros em Columbine - Trailer

Tiros em Columbine – a égide do Medo

Em “Fahrenheit 9/11”, de Michael Moore o Diretor deixa claras as relações entre a família Bush e a Família Bin Laden, da Arábia Saudita, espantando-se com a série de equívocos, detalhes mal explicados pelo governo estadunidense como a providência da retirada de toda a família de Osama Bin Laden logo após o atentado de 11 de setembro de 2001 e as reuniões entre representantes dos interesses da Família Bin Laden e o próprio Jorge Bush (pai). Inquietante e faz-nos refletir em torno de teorias conspiratórias, mas não há como negar: a primeira eleição de Jorge W. Bush (o pequeno) foi complicada e polêmica. Claramente o vencedor foi o democrata Al Gore mas autoridades nomeadas por Jorge Bush (pai) providenciaram a “vitória” de Bush filho. Sua popularidade estava ao rés-do-chão quando do atentado às Torres Gêmeas, o World Trade Center. A partir daquele evento praticamente toda a nação ianque se uniu em torno do seu dirigente demente. No segundo turno Bush – segundo abalizados analistas – estava completamente sem chances. Um pronunciamento de Osama Bin Laden dias antes da votação foi providencial para garantir seu “second term” – segundo mandato. Tudo isso é muito suspeito...

Tiros em Columbine”, de 2002. Selecionado pelos organizadores do Oscar como “Melhor Documentário do Ano”, ao receber o prêmio em 2003, Michael Moore chamou ao palco seus colegas de produção e discursou informando que ele e sua equipe de produção “gostam de não-ficção, mas vivem em tempos fictícios, onde resultados fictícios das eleições americanas elegeram um presidente fictício”.

Ovacionado por uns e execrado por outros, pessoas intransigentes em sua busca pela verdade, como Moore, tendem a ser consideradas polêmicas mesmo...

O fato e a abertura chocante

No dia 20 de abril de 1999, dois jovens estudantes entraram fortemente armados na biblioteca de uma escola pública na pequena Columbine – Littleton – Colorado, mataram doze colegas e um professor, suicidando-se em seguida. Este o mote do filme: tentar compreender os motivos de tanta violência gratuita, absurda e vastamente disseminada na sociedade estadunidense.

Desnecessário enfatizar que não foram armas compradas legalmente, pois os jovens eram menores de idade e não tinham licenciamento, mesmo para a liberal legislação estadunidense.

O fato é que os cidadãos da Nação mais belicosa do mundo têm motivos de sobra para viver sobressaltados, em permanente estado de temor e tremor.

A seqüência de abertura tem um tom fortemente sarcástico: a montagem a partir de um outro filme propagandístico da Indústria Armamentista estadunidense apresenta um militar informando que a Associação Nacional do Rifle – hoje presidida por ninguém menos que Charlton Heston (Ben Hur, Os Dez Mandamentos...) – “produziu um filme que você considerará de grande interesse”. A seguir, ao som do “Battle Hymn of The Republic” (aquela que tem por refrão: “Glory, Glory, Alleluja, The truth is marching on!”) a narração do próprio Michael Moore informa de um dia normal nos Estados Unidos da América – o fazendeiro atua em sua lida, o entregador de leite cumpre o seu papel social, o presidente bombardeou mais um país cujo nome mal conseguimos pronunciar, a professora recebe sua turma para mais uma manhã de aulas e dois estudantes saem para jogar boliche às 6h da manhã. A seguir algo surpreendente: o North Country Bank, de Michigan, oferece um rifle gratuito a quem abrir uma conta. Moore abre a conta e sai da agência ostentando o rifle no ombro.

Armas por toda a parte

Moore apresenta uma sociedade aterrorizada, decidida a tomar sobre si a proteção de seus lares contra o inimigo. Qual inimigo? E isso importa? Importante mesmo é que todos vivam com medo e assim a sociedade seja mantida sob controle, ainda que o preço para isto sejam desvios enlouquecidos.

Em qualquer lugar do mundo, conseguir armas é algo exageradamente simples quando se dispõe de recursos e disposição para tanto, seja oficialmente, seja no mercado negro.

Mas aprofundemos: seria o excesso de armas nas mãos de civis o motivo da violência existente nos EUA? Moore atravessa a fronteira norte e visita algumas cidades do Canadá. Encontra um país com o mesmo – senão ainda maior – número de armas de fogo nas mãos de civis e um índice de violência inacreditavelmente baixo. Entrevistando o Delegado de Polícia de uma cidade canadense de porte médio, percebe-se que ele encontra dificuldade em se recordar quando houve por ali o último homicídio. Após algum diálogo, constata que, para uma cidade aí de uns 500.000 habitantes, há uma média de 1 (UM) homicídio a cada 3 anos.

Outra coisa somente crível porque testemunhada, filmada e documentada é o fato de ninguém no Canadá trancar a porta de suas casas, vivem sem medo! Isto deixa o cineasta tão estarrecido que ele resolve visitar vários bairros de diferentes cidades e testa abrir as portas sem bater. Nenhuma está trancada. Em algumas encontra os moradores, que o recebem com cortesia e uma leve surpresa, mas ninguém no Canadá tranca a porta de suas casas.

Enquanto é relativamente comum nos EUA que as pessoas tenham fechaduras e travas triplas ou quádruplas em suas portas fortificadas e muitos tenham pistolas e revólveres literalmente sob o travesseiro, no Canadá as portas ficam somente encostadas e as armas guardadas em armários para uso em caça...

Tudo aponta na direção de a violência não ter origem direta na quantidade de armas – idêntica nos dois países estudados no documentário – mas antes no viver sob a égide do medo. Quanto a mim sou radicalmente pacifista. É imoral fabricar mísseis mais caros que universidades, injustificável construir tanques de guerra mais onerosos que habitações populares, incrível que uma bala de revólver seja mais cara que um litro de leite. E tudo isto num mundo carente de universidades, moradias, leite...

Não justifico a proliferação de armas, mas convenhamos, não é a ferramenta que causa problemas, mas o mau uso dela. O exemplo do Canadá é fantástico. Outro é o da Suíça, país em que todos os homens maiores de idade – e mulheres que sejam voluntárias – servem à Guarda Nacional do país por seis meses logo que atingem a maioridade e mantêm armas em casa; o país não aparece nas estatísticas de violência contra a pessoa.

Contradições e Paradoxos Deliciosos

Sempre gostei de contradições e paradoxos. E eles abundam no documentário. O gerente de uma fábrica de mísseis de longa distância em Colorado não consegue entender como é que jovens entram numa escola e saem matando pessoas a esmo. E não vê a menor conexão entre a utilidade do que fabrica – armas de destruição em massa – e a cultura da violência em seu país...

O então presidente Bill Clinton aparece em rede nacional de TV justificando um bombardeio na Sérvia, considerando a destruição de escolas e hospitais “casualties of war” – acidentes de guerra – diante de um propósito maior. Uma hora depois a Casa Branca manifesta profundo pesar pelo massacre em Columbine e condena com veemência que se faça nos EUA o que os estadunidenses fazem alhures quase que diariamente...

Conheça mais sobre o trabalho de Michael Moore: www.michaelmoore.com

O Labirinto do Fauno - Trailer

O Labirinto do Fauno de Guillermo Del Toro

O Labirinto do Fauno, do diretor Guillermo Del Toro é visceral, violento, mágico e impressionante. É o retorno da fábula à seu devido lugar e uma história que nos choca e emociona com seus toques líricos e oníricos diante da violência de um país assolado pela Guerra Civil Espanhola.

A criatividade geralmente acontece na quebra de padrões, aplicando uma nova visão a fatos e coisas. Analisar problemas sobre novos ângulos. Perceber detalhes sutis e retirar a poesia da vida. Ver a arte antes mesmo dela existir. Estes são fatores que formam um criativo.

O Labirinto do Fauno


Todos estes elementos se mostram presentes no mexicano Del Toro. O diretor reuniu em El Labirinto del Fauno uma série de metáforas e alegorias, e criou um filme pesado e violento que conta a história de uma menina chamada Ofelia (Ivana Baquero) filha de Carmen (Ariadna Gil), uma mãe viúva que se casa com Vidal (o brilhante Sergi López), um oficial fascista que tenta eliminar guerrilheiros que lutam contra o regime de Francisco Franco. A menina Ofelia é fascinada por fábulas e contos de fadas. Sempre com muitos livros em mãos, se vê obrigada a se mudar com a mãe para o campo onde seu padrasto, que claramente oprime a menina, trava uma intensa luta contra os rebeldes.

O Fauno

Lá ela encontra um labirinto que fará sua imaginação tornar real um mundo mágico repleto de seres míticos. Um deles é o Fauno, uma variação do deus Pan, criatura das possibilidades e do pensamento livre, é a única capaz de saciar seu desejo latente de transformação.

O Fauno então conta a menina que ela era a princesa do mundo subterrâneo, um local onde não se conhecia tristeza e dor. Ela havia fugido para conhecer o mundo dos homens e não retornou mais. Seu pai, o rei, ordenou então que fossem abertos portais por todo o mundo na esperança de que sua filha retornasse.

Ofelia recebe três tarefas que, ao cumpridas, farão com ela retorne a seu mundo e verdadeiros pais. A primeira é retirar uma chave mágica da boca de um sapo gigante que habita as raízes de uma árvore. Depois utilizá-la para conseguir um punhal protegido por um ser pelancudo e com olhos nas mãos. Ela chega até o local onde estão o punhal e este homem pálido através de uma porta aberta com um giz dado pelo Fauno junto com uma observação: não deve, em hipótese alguma, comer nada enquanto estiver cumprindo a missão, coisa que não acontece, já que ela encontra um lindo e suculento banquete. Neste detalhe o diretor nos remete à igreja católica, que apoiou abertamente os fascistas, e pune violentamente os que cedem a tentação. A terceira, e mais difícil, é a de derramar o sangue de um ser inocente: seu próprio irmão.

Pelancudo

No filme não há limites entre fantasia e realidade. Ele aponta caminhos e deixa que você decida em que acreditar. Tanto quem gosta de fadas, lendas e mitologias quanto os mais céticos irão apreciar a história. A crítica social e política somadas a magia da fuga emocional de Ofelia são um mundo único criado pelo fantástico Guillermo Del Toro. O Labirinto do Fauno é imperdível!